"Dorina é um exemplo de trabalho feito para engrandecer toda a sociedade" PDF Imprimir E-mail
Seg, 30 de Agosto de 2010 10:46

Dorina, vestida de casaco amarelo, em frente de estante com milhares de livros em brailleVereadora Mara Gabrilli lamenta profundamente a perda de Dorina Nowill, amiga e parceira de luta pela inclusão da pessoa com deficiência no Brasil. "Sua contribuição para a educação e inclusão das pessoas cegas e com deficiência visual é inestimável. Era um exemplo de trabalho feito para engrandecer toda a sociedade", afirma. Dorina Nowill morreu ontem (29/8), aos 91 anos, em São Paulo. Velório ocorrerá na sede da Fundação Dorina Nowill, na Vila Clementino; enterro será hoje no cemitério da Consolação


Morreu ontem, aos 91 anos, vítima de uma parada cardíaca, a pedagoga Dorina de Gouvêa Nowill. Ela estava internada havia 15 dias por causa de uma infecção.

 

Cega desde os 17 anos em decorrência de uma infecção ocular, Dorina criou em 1946 a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, para produzir e distribuir livros em braille para que deficientes visuais como ela pudessem estudar.

Em 1991, a fundação ganhou o seu nome. Casada havia 60 anos com o advogado Edward Hubert Alexander Nowill -que conheceu nos EUA-, ela deixa cinco filhos, 12 netos e três bisnetos.

Segundo sua neta Martha Nowill, 29, o enterro será hoje no cemitério da Consolação (região central de São Paulo). O velório acontecerá a partir das 8h e se estenderá até as 16h na sede da fundação, na Vila Clementino.

Martha disse que ela estava consciente anteontem, quando a viu pela última vez -tinha, porém, dificuldade para falar. "Ela disse que estava em paz", afirmou.

Mara Gabrilli e Dorina Nowill juntas sorrindo e com as mãos dadasFrases

"Perdemos a maior lutadora na área da deficiência visual do país. Era bem articulada e tinha uma compreensão realista das coisas"
LINAMARA RIZZO BATTISTELLA, secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

"Era um exemplo de trabalho feito para engrandecer toda a sociedade"
MARA GABRILLI, vereadora em São Paulo

"Ela conseguia aglutinar as pessoas para lutar pela melhoria das condições dos cegos"
ALFREDO WEISZFLOG, presidente da Fundação Dorina Nowill

HISTÓRIA
Nascida em São Paulo em 1919, Dorina contou à Folha no ano passado, ao completar 90 anos, que a última imagem que viu na vida foi em 1936: uma fotografia de um navio do álbum de viagem de uma amiga da mãe, que retornava da Europa.

Apesar das dificuldades para continuar estudando naquela época, em que a leitura braille não era difundida no Brasil, Dorina foi a primeira aluna cega a frequentar um curso regular, na Escola Normal Caetano de Campos.

De 1961 a 1973, dirigiu a Campanha Nacional de Educação de Cegos do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Em sua gestão foram criados os serviços de educação de cegos em todas as unidades da federação.

Especializada em educação de cegos pelo Teacher"s College da Universidade de Columbia, em Nova York, Dorina conseguiu que em 1948 sua fundação recebesse da Kellog's Foundation e da American Foundation for Overseas Blind uma imprensa braille completa.

Desde então, o instituto se tornou uma referência mundial na inclusão social de crianças, jovens e adultos cegos ou com baixa visão.

A neta Martha fez várias entrevistas com a avó para o roteiro de um filme sobre sua vida. A jovem deverá interpretar o papel da avó. "Embora feliz com a ideia, ela sempre se perguntava se alguém teria interesse em ver um filme sobre sua vida."

BIOGRAFIA DORINA NOWILL

VIDA PESSOAL
Nascida em 28 de maio de 1919, em São Paulo, perdeu a visão aos 17 anos. Casou-se em 1950 com o advogado Edward Hubert Alexander Nowill, com quem teve cinco filhos, 12 netos e três bisnetos. Morreu ontem aos 91 anos, de parada cardíaca.

MILITÂNCIA

1946
Ajuda a criar a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, que ganharia seu nome em 1991

1951
Passa a presidir a entidade

1961 a 1973
Dirige o primeiro órgão nacional de educação de cegos no Brasil, criado pelo MEC

1979
É eleita presidente do Conselho da União Mundial dos Cegos

1996
Publica sua autobiografia


Fonte: Folha de S. Paulo, JAMES CIMINO